Primeira montagem no Brasil acerta ao arriscar

Crítica/"Ariadne em Naxos"
São Paulo, terça-feira, 19 de agosto de 2008
ARTHUR NESTROVSKI, articulista da Folha de São Paulo

A explosão virtual de fogos de artifício, no fim, fazia pelo menos três sentidos. Por um lado, era a imagem autoconscientemente irônica do grande amor entre Ariadne e Baco, não menos autoconsciente nem menos ironicamente transfigurados na caracterização da soprano Eiko Senda e do tenor Marcello Vanucci, estrelas dessa nova montagem da ópera "Ariadne em Naxos", de Richard Strauss (1864-1949), dirigida por André Heller-Lopes, com regência de José Maria Florêncio. Por outro lado, realizava a fusão entre "real" e "virtual", na coincidência entre o final da história de Ariadne -a peça-dentro-da-peça, que constitui o segundo ato da ópera- e a anunciada queima de fogos de artifício na festa do milionário vienense, que ordenou a mistura de comédia e tragédia numa peça só e exigiu que tudo terminasse "em ponto" na hora dos fogos.

Por outro lado ainda, involuntária, mas, nesse ponto da nossa história, inevitavelmente, ecoava os fogos olímpicos -tanto mais quando se lembra que foi Strauss quem compôs as marchas triunfais da Olimpíada de 1936, encomendada não por um milionário vienense, mas por outro austríaco, Adolf Hitler. E isso não é apenas coincidência fortuita, porque na obra de Strauss estão sempre se enovelando os fios da música, em tramas que misturam as paixões humanas com as paixões do mecenato e da política. A montagem de Heller-Lopes é a primeira a ser vista na cidade, 92 anos depois da estréia dessa versão da ópera, parceria de Strauss com o libretista Hofmannsthal. Começa com a orquestra de câmara à vista, depois baixando ao fosso, num dos tantos gestos marcantes dessa produção que explora com engenho a natureza metaliterária do libreto. Coxias e bastidores estão à vista o tempo todo no "Prólogo", que inclui participações "reais" da equipe de produção. Mas o "Prólogo", por direito, é de Denise de Freitas, no papel travestido do Compositor.

A meio-soprano passa a ser dona dessa personagem, cantando num registro que só favorece seus timbres mais graves. Denise é uma das maiores cantoras e maiores artistas do Brasil. Só não foi mais ovacionada porque a platéia não fazia idéia de que não voltaria na segunda parte. Quem voltou, com a mesma espoleta teatral e vocal, foi a soprano Andrea Ferreira, que já fizera um inesquecível par com Denise em "João e Maria" (2002) e agora brilha, sensual e cômica, na marlenedietrichizada Zerbineta. "Ariadne em Naxos" exige um elenco numeroso. Entre os destaques, não dá para não mencionar Leonardo Neiva (Professor), as ninfas Adriana Clis, Gabriella Pace e Edna d'Oliveira, Caio Ferraz, como Mordomo, aplaudido em cena aberta (por um papel falado!), e o Arlequim modernista de Homero Velho, ícone dos comediantes trágicos no anti-Olimpo de Strauss. Correndo pelos salões da mansão clássica, o fio de Ariadne é verde fosforescente. Serve de símbolo -impactante, simples, arrojado e bem-humorado- dessa montagem que arrisca tanto, mistura tanto, e em que afinal tudo dá olimpicamente certo.