Ariadne inova com bom senso

Montagem de Strauss no Municipal comprova ser possível recriar sem romper com a tradição
Lauro Machado Coelho

Imaginem a parede de trás do cenário. É no fundo do palco que o encenador André Heller-Lopes ambienta o Prólogo da Ariadne em Naxos, de Richard Strauss, que estreou domingo no Teatro Municipal. Ali, nessa deliciosa cena de teatro sobre teatro, movimenta-se toda a fauna de bastidores, em torno do jovem Compositor - uma criação simplesmente espetacular de Denise de Freitas -, que está às voltas com as dificuldades que cercam a estréia de sua ópera séria, na casa do homem mais rico de Viena. E como é de teatro que estamos falando, nada mais justo do que a homenagem às figuras da casa, a começar por Maria Rosa, fidelíssima funcionária do Municipal, que empresta os seus trajes e a sua cabeleira flamejante ao Lacaio (Carlos Eduardo Marcos). Este é um dos sinais da inteligência de um diretor que demonstra ser possível inovar sem romper com a tradição e, sobretudo, sem cometer infrações ao bom senso e ao bom gosto.

O prólogo da Ariadne é a parte mais difícil da ópera, pelo seu estilo seco e ágil de recitativo, perpassado por poucos momentos de canto. Heller conseguiu torná-lo engraçado, vivo, e enriquecido pelo ótimo desempenho de Leonardo Neiva (o Professor de Música apanhado no fogo cruzado de interesses contrários) e de Paulo Queiroz, perfeito, vocal e cenicamente, como o Mestre de Dança.

Personagem muito importante no Prólogo é o Mordomo que - achado fabuloso - não canta, fala apenas, pois ele nada tem a ver com esse mundo da ópera, que não entende e despreza. O alemão de Caio Ferraz é simplesmente incompreensível - aliás, para efeito de distanciamento ainda maior, ele poderia ter feito o papel em português -; mas, por suas atitudes físicas, ele traduz perfeitamente o glacial desinteresse do empregado, que está ali apenas para transmitir as ordens de uma divindade invisível e todo-poderosa: o Patrão.

Mas é Denise de Freitas quem carrega o Prólogo com sua compreensão do papel e capacidade de fazer viver uma das mais fascinantes criações de Strauss, homenagem a seu Mozart bem-amado. Sua execução do hino à Música, "a mais sagrada das artes", foi um legítimo momento de grande ópera.

O cenário para a ópera propriamente dita, com duas portas que se enfileiram em perspectiva, é muito bonito e acena para a ambientação barroca de uma ópera séria que é encenada no palácio de um mecenas. A esse cenário, as três ninfas trazem o fio de Ariadne e, com ele, traçam no chão os limites da ilha de Naxos, na qual, abandonada por Teseu, Ariadne se enclausura, acreditando nada mais lhe restar do que a morte. Nesse espaço se desenrolam as cenas "sérias", entre Ariadne (Eiko Senda) - que, após a recente Butterfly, faz o papel com extrema segurança, demonstrando-se perfeitamente à vontade nas frases longas e de opulenta sonoridade das cantilenas de Strauss - e as três ninfas. Essas figuras mitológicas aparentadas às filhas do Reno wagneriana foram lindamente cantadas por Gabriella Pace, Edna de Oliveira e Adriana Clis, cujas vozes fundiram-se harmoniosamente, nos belos trios que lhes são confiados.

Ali também aparecem - por imposição do dono da casa - Zerbinetta e seus quatro pretendentes, figuras de Commedia dell?Arte que fazem o contraponto cômico com as personagens sérias. Os pés no chão, o pragmatismo de Zerbinetta, para quem, se um namorado se perde, basta substituí-lo, é oposto e complementar à intensidade de Ariadne e ao gosto de morte que ela sente na boca, ao ser traída pelo seu amado.

Devido, talvez, à tensão da estréia, Andréa Ferreira esteve aquém de suas próprias possibilidades, em um papel que tem tudo para crescer no decorrer da temporada. Ela é uma ótima atriz, a sua Zerbinetta é muito graciosa, mas, além dos problemas de afinação que teve no prólogo, a sua voz parece ter perdido um pouco do vibrato natural que tinha, está mais seca e cortante; e nos agudos sustentados estava soando forçada.

O mesmo processo de aperfeiçoamento pode ocorrer com o grupo irregular dos pretendentes: Homero Velho (Arlequim) estava muito bem; os demais - Sérgio Leite, Sérgio Weintraub, Lúcio Mayer -, nem tanto. Mas é verdade que o quinteto cômico foi um pouco prejudicado pelos andamentos erráticos e a tendência do maestro José Maria Florêncio a tocar alto demais, até mesmo quando tem nas mãos apenas o transparente conjunto de câmara para o qual a ópera foi escrita.

O conceito de Verwandlung (metamorfose) do indivíduo pela força regeneradora do amor, em que Hugo von Hofmansthal baseou seu libreto, e que norteou a direção de André Heller, adquire todo sentido com a chegada de Baco (Marcello Vannucci) à ilha. Ele vem resgatar Ariadne, oferecendo-lhe o seu amor. E, ao recebê-lo, assume uma dimensão heróica, que o faz erguer-se à condição de deus. É muito bonito o momento em que as ninfas entregam a Ariadne o seu fio para que, seguindo-o, ela consiga sair do labirinto de solidão em que se enleou, indo ao encontro de Baco.

Surpreendentemente adequado para o papel, com um timbre escuro que caiu muito bem a seu tipo de tenor spinto, de grande volume e projeção, Vannucci fez um belo dueto final com Eiko Senda, num palco vazio que os isolou, no casulo de seu encantamento um com o outro. A imagem final é a da quilha do barco do deus, no qual ele embarca com Ariadne. E, atendendo à solicitação da música, no momento em que a orquestra atinge seu último fortíssimo, desencadeia-se uma triunfante explosão de fogos de artifício - programada desde o início, pelo dono da casa, para o fim da festa - dando ao espetáculo um belíssimo encerramento.